22/12/2007
Final feliz para a triste “Fundação do Final Feliz”


Em seu comentário sobre nosso post “Fahrenheit 451 para crianças” (republicado abaixo), um de nossos prestimosos leitores, Arley, declarou: “Admirável Mundo Novo esse em que vivemos”.

Pois é, Arley, a história parecia tão absurda que cheirava mesmo a ficção. Ainda que a associação estivesse criada, tivesse site e porta-voz. Que Daily Mail e o Guardian Book Blog tivessem dado suas reportagens. Bem como muitos outros blogs. Só que tudo não passou de um hoax.

Hoax, para quem não sabe, são aquelas histórias falsas que se disseminam pela net seja por e-mail, por sites de relacionamentos ou qualquer outro meio internético. Você deve conhecer vários, vindo naquelas populares correntes por e-mail.

Assim, em vez de uma fogueira de livros, o que aconteceu na Inglaterra foi uma inflamada discussão entre autores, editores e livreiros sobre censura e como livros com finais tristes (inclusive os da Lemony Snicket) são importantes.

A jornalista Ceri Radford, do Telegraph, publicou um post desmascarando a The Happy Endings Foundation. Quem primeiro revelou que se tratava de um hoax, no entanto, foi o
Inkygil’s blog. O pessoal do Inkygirl’s blog contou que tudo não passava de uma manobra de marketing forjada pelos próprios editores da Lemony Snicket, da Egmont Books e da empresa de publicidade ArtScience.

Quem chamou a atenção para o post de Ceri foi nosso leitor Roberto Cunha.
Ceri perguntou a uma das colaboradoras do projeto, Sara Stewart, se ela não considerava a estratégia desonesta com seus leitores. Ela se justificou (ou tentou) dizendo que era uma pessoa de Relações Públicas e que não fazia nada muito diferente que outros políticos fazem. Disse ainda ter se sentido surpresa pelo fato de a história ter sido levada a sério – ainda que a divulgação tenha sido toda feita para isso.

Seja como for, é até que consolador pensar que não houve a tal fogueira anunciada. E que a história-embuste suscitou entre educadores e pais uma discussão sobre o que seus filhos lêem. Nosso leitor Arley colocou sua opinião: “Sou pai, e claro que não quero nunca ver o meu filho triste. Mas daí, alterar os finais de histórias clássicas para esconder a realidade, como se a tristeza fosse uma lepra, um ebola. Uma geração que não sabe o que é sofrimento, terá imunidade para superá-lo?”.

Agora é saber se a editora terá seus tristes infantis mais vendidos ou se os leitores, bravos – e com razão – pelo 1º de abril fora de época, não irão boicotá-la. Você boicotaria?
Aproveito para deixar aqui meus votos de Feliz Natal e ótimo Ano Novo para Arley, Roberto e todos os leitores do Mente Aberta. Contamos com a leitura fiel e atenta de vocês em 2008.

O post original:

Fahrenheit 451 para crianças



Tudo bem que, dependendo do dia e do humor, um final feliz é tudo de que precisamos. Mas alguns pais britânicos andam levando a idéia muito a sério. Tão a sério que fundaram a Happy Ending Foundation. Para quem não sabe do que se trata, é uma associação de pais formada com o intuito de “proteger” as crianças das amarguras e coisas feias apresentadas em histórias “deprimentes”.

Para levar a cabo sua meta, resolveram adotar uma tática digna de ficção científica: marcaram para o final do mês uma queima-total dos livros. Não, não é liquidação: eles vão fazer o que chamam de “Fogueira dos Livros Maus”. No convite, o pedido para que os pais levem seus volumes “pouco alegres” para transformarem em obras que acalantem (literalmente) suas vidas. Quem informou foi o jornal Daily Mirror, no começo da semana passada.

Outra das atividades da fundação consiste em organizar um “índex dos finais tristes” e retirá-los de todas as bibliotecas e escolas. A idéia de fundar o órgão foi de Adriene Small. Em 2000, ela assistiu sua filha entrar em depressão depois de ler um dos livros da série Lemony Snicket, hoje no índex da instituição. Detalhe: a filha leu todos os outros livros da série de 13 depois disso. Small afirma no site que pretende reescrever todos os finais da série.

Além de estabelecer os livros proibidos, queimá-los e reescrevê-los, a The Happy Endings Foundation dá dicas do que ler. Entre as recomendações estão “O ursinho Puff” (no qual, claro, o reflexivo e pessimista burrinho Bisonho leva uma lição de alegria de Puff) e, encabeçando a lista, adivinhe? Isso mesmo, o clássico do otimismo: Polyanna.

Fiquei curiosa por saber duas coisas. A primeira: o que eles achariam de O Triste fim do Menino Ostra, do cineasta-escritor-esquisito Tim Burton, noticiado aqui no Mente Aberta. E, segundo, com quais argumentos concretos eles vão explicar para seus filhos de que maneira, no mundo em que vivemos, se consegue fazer o “jogo do contente” o tempo todo.

(Laila Abou Mahmoud)

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Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).
 
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