Não vi ninguém juntando as pontas, mas foi curioso saber, no mesmo dia, da morte do ator e comediante Joey Bishop (à direita na foto) e da demolição do hotel-cassino Sands, em Atlantic City, Estados Unidos. As duas notícias representam o fim de uma era. Bishop era o remanescente de um grupo de talentosos cafajestes denominados The Rat Pack (algo como "a turma dos ratos"). Os companheiros de Bishop eram ninguém menos que Frank Sinatra (1915-1998), Sammy Davis, Jr. (1925-1990), Dean Martin (1917-1995) e Peter Lawford (1923-1984). Os cinco faziam um divertidíssimo espetáculo de humor e música que percorreu as casas de shows americanas na década de 60. Cantavam, contavam piadas e bebiam sem parar. O Sands era considerado a casa do grupo. Bishop morreu na quarta-feira, dia 17, e o Sands foi ao chão no dia seguinte, para dar lugar a um novo e moderníssimo cassino.
Para quem não conheceu o Rat Pack, segue abaixo uma espécie de trailer de Onze Homens e Um Segredo ("Ocean's Eleven", de 1960), a primeira versão do filme que, em 2001, foi refilmado com estrelas como George Clooney, Matt Damon e Brad Pitt. Os cinco cafajestes eram as principais estrelas do filme. No fim do clipe, com a música tema na voz de Sammy, Bishop é justamente o último da fila a ser olhado, quando os onze bandidos percebem que o assalto tinha dado errado. O último a se juntar à gangue na eternidade.
A cantora americana Rihanna é o atual “hype” das pistas e muitos a apontam como a nova Beyoncée – como se a própria já tivesse desaparecido. Enfim, o grande sucesso de Rihanna, “Umbrella”, já teve vários remixes para ajudar o povo da noite a chacoalhar o esqueleto nas pistas de dança. Agora, a música ganhou uma inusitada (e divertidísima) versão forró pé-de-serra, num vídeo hilário. Se a moda pega, logo teremos o arrasta-pé de Madonna ou o rala-coxa de Justin Thimberlake.
18/10/2007 Babenco limou filme de Fitipaldi de sua obra
O Passado é o novo filme do diretor paulistano-portenho Hector Babenco. Um mergulho profundo na fenomenologia da separação, estrelado por Gael García Bernal (Rimini) e Analía Couceyro (Sofia) – esta última uma atriz extraordinária. Babenco capta como poucas vezes no cinema a possessividade feminina e a leviandade dos machos. Adorei o filme, que continua pulsando no meu cérebro. E, por falar em Passado, estava olhando a filmografia do genial diretor no folheto do filme e percebi que ele cortou sua primeira grande experiência cinematográfica da filmografia. Oficialmente, ele começou com O Rei da Noite, de 1975. De fato, foi seu primeiro longa-metragem de ficção. Mas Babenco começou dois anos antes, com o longa-metragem documentário O Fabuloso Fittipaldi. O filme conta a trajetória do então maior ídolo do automobilismo brasileiro, o campeão mundial Emerson Fittipaldi. Acima, um trecho do filme no YouTube. Acho que Babenco não tem por que não incluir esse épico dos tempos do Milagre Brasileiro em sua obra. É uma espécie de anti-Pixote, porque fala de um vencedor. Depois, Babenco se dedicaria ao cinema social. Será que Hector, imitando o personagem Rimini, não quer olhar para o passado? Ou é mania de diretor de cinema cult que quer ser conhecido apenas como "autor". Se é assim, a gente pode ver a "autoralidade" da seqüência de Fittibaldi correndo de Maverick amarelo no velho autódromo de Interlagos. É pura emanação do passado, em tomadas e cortes interessantes. A trilha do filme tem assinatura de Marcos Valle, outro autor de peso na cultura brasileira.
“Catra patra”, em turco, significa “falar uma língua incorretamente e aos tropeços”. Esse é um dos termos levantados pelo inglês Adam Jacot de Boinod em Tingo: O Irresistível Almanaque das Palavras que a Gente Não Tem (Conrad, 216 págs, R$ 37). O livro traz uma série de palavras deliciosas de vários idiomas, com os significados mais complexos, engraçados e inimagináveis. São amostras de como cada língua organiza o pensamento, e acaba traduzindo muito da cultura. Segue uma degustação das melhores, para você não incorrer no catra patra:
* Vaseliner, o verbo em francês que nomeia o ato de passar vaselina, não tem sentido sexual. Significa lisonjear. Tipo babar o ovo de alguém. (Aliás, “babar o ovo” deveria entrar nesse almanaque). Para os japoneses, a expressão kingyo no fun é que designa o puxa-saco. O sentido literal da expressão é cocô de peixe dourado. Isso porque, após fazer as necessidades, os peixinhos são acompanhados por seus detritos enquanto nadam, ao menos durante um tempo. * O alemão tem algumas palavras fantásticas: kummerspeck é o peso que alguém ganha ao afogar as mágoas na comida (literalmente é o “bacon de tristeza”). Falando em calorias, seser, em shona, língua falada no Zimbábue, é um verbo que significa andar balançando a gordura do corpo. * Olfrygt, em dinamarquês viking, expressa um sentimento nobilíssimo: o medo de faltar cerveja. * Umudrovat se é literalmente filosofar no hospício, em tcheco. Algo como vagabundear, em bom português. * Muwaswas, em árabe, é a pessoa obcecada por decepções. Destrincha um caráter em uma palavra. * Mokita, no idioma kiriwana, de Papua Nova Guiné, quer dizer algo como “a verdade que todos sabem, mas sobre a qual ninguém fala”. Esclarecedor. * Os italianos usam a palavra biodegradabile para quem se apaixona toda hora. Faz bem para o meio ambiente, mas não para o coração. * Bakkushan, em japonês, é uma mulher bonita. Mas só quando vista de trás, e não de frente. Sobre essa palavra, eu ia escrever “não sei como os brasileiros não inventaram isso antes”, mas os meninos da redação me corrigiram a tempo e disseram que o correspondente por aqui é “Raimunda”. * Já mungil é um termo muito mais aprazível para uma mulher: significa pequena e bonita (sim, ambos) em indonésio. Adorei! * A capacidade de condensar emoções fortíssimas em alguns fonemas é uma das coisas mais encantadoras das línguas. Yugen, em japonês, é uma “consciência do universo que desperta sentimentos profundos e misteriosos demais para serem postos em palavras”. Essa coisa, assim, tão indizível, cabe sim numa palavra. * Os japoneses também têm uma palavra para outra agonia humana, mais precisamente masculina: koro, o medo de que o pênis esteja se recolhendo para dentro do corpo (!!!!) * Ah, tingo, que dá título ao livro, significa pegar tantas coisas emprestadas da casa de um amigo, que não sobra nada. Em rapanui, língua falada na Ilha de Páscoa.
Se você tem um repertório de expressões curiosas (estrangeiras ou nacionais), coloque na roda.
Tem coisa pior que ídolos caindo na sua frente? O senegalês criado em New Jersey (haja globalização) Akon fez isso diante de milhares de adolescentes, ontem, dia 16, no Via Funchal em São Paulo. Eu já desconfiava, mas não custa verificar: aquilo que toca na rádio e soa tão bem, como Akon, cai por terra rapidinho ao vivo. Ele deve ter tido uma força do Snoop Dogg e do Eminem. Mas, vamos e venhamos, Akon é bem ruinzinho... Não acredite em nada do clipe acima!
16/10/2007 Da série: "Era melhor deixar como estava"
Bono gastou quantos créditos de carbono para fazer esta versão de "I am the Walrus", dos Beatles?
Porque foi desperdício. A faixa em questão faz parte da trilha do filme Across the Universe, um musical com trilha só dos Beatles e sem previsão de estréia no Brasil. A versão de Bono para o clássico ficou pior que a interpretação do ator Jim Carrey no CD de despedida do produtor George Martin. Segundo os créditos, a banda que o acompanha se chama "The Secret Machine". Mas você não precisa ter ouvido absoluto para saber que o ruído que acompanha Bono o tempo todo é a guitarra de The Edge, seu parceiro no U2. Dos barulhos inspirados no hip-hop nem é bom falar. Sacrilégio. Imagino que os músicos se locomoveram até o estúdio usando carros com motor de combustão interna. Talvez Bono, de agenda lotada, tenha pegado um vôo até o lugar combinado para a gravação. Há inclusive a possibilidade do pessoal ter feito um ou dois ensaios - o que multiplica o problema algumas vezes. Está na hora de pensar no meio-ambiente, pessoal.
16/10/2007 As 100 músicas que ninguém mais consegue ouvir
Elas eram espetaculares nas 10 primeiras audições. Caíram para a categoria de ótimas nas 100 execuções seguintes. Mas estas faixas ficaram mais do que o combinado e hoje causam arrepios pela razão errada: são reflexos de horror, não de prazer. Podem culpar os filmes, as novelas ou simplesmente as rádios “sofisticadas”. O importante é que ninguém mais consegue ouvi-las.
001 — “Yesterday” — The Beatles 002 — “My way” — Frank Sinatra 003 — “Imagine” — John Lennon 004 — “Blowin’ in the wind” — Bob Dylan (idem para a versão do senador Eduardo Suplicy) 005 — “Codinome beija-flor” — Cazuza 006 — “Smoke on the water” — Deep Purple 007 — “Stairway to heaven” — Led Zeppelin 008 — “Hotel California” — The Eagles 009 — “Rock ‘n’ roll all nite” — Kiss 010 — “Você não soube me amar” — Band Blitz 011 — “Like a virgin” — Madonna 012 — “Sweet child o’ mine” — Guns ‘n’ Roses 013 — “Bohemian Rhapsody” — Queen 014 — “Sunshine of your love” — Cream 015 — “O bêbado e o equilibrista” — Elis Regina 016 — “País Tropical” — Jorge Ben Jor 017 — “Every breath you take” — The Police 018 — “Pretty woman” — Roy Orbinson 019 —”Satisfaction” — The Rolling Stones 020 — “California dreamin” — The Mammas and the Papas 021 — “Light my fire” — The Doors 022 — “I Feel good” — James Brown 023 — “Sunday, bloody Sunday” — U2 024 — “Emoções” — Roberto Carlos 025 — “Ebony and ivory” — Paul McCartney e Stevie Wonder 026 — "Leãozinho" — Caetano Veloso 027 — "Paratodos" — Chico Buarque 028 — "Borbulhas de amor" — Fagner 029 — "Gita" — Raul Seixas e Paulo Coelho 030 — "Bem que se quis" — Pino Daniele, vers.Nelson Motta 031 — "Mamãe eu quero" — Jararaca e Ratinho 032 — "Trem das onze” — Adoniran Barbosa 033 — "Luka" — Susanne Vega 034 — "Crocodile rock" — Elton John 035 — "Garota de Ipanema" — Tom e Vinicius 036 — "Comida" — Arnaldo Antunes 037 — "É o amor" — Zezé di Camargo 038 — "No rancho fundo" — Lamartine Babo-Luiz Peixoto 039 — "Romaria" — Renato Teixeira 040 — "Você é linda" — Caetano Veloso 041 — "Oceano" — Djavan 042 — "Candle in the wind" — Elton John 043 — "Asa branca" — Luiz Gonzaga 044 — "É" — Gonzaguinha 045 — "Let's get it on" — Marvin Gaye 046 — "Simply the best" — Tina Turner 047 — "Asa morena" — Zizi Possi 048 — "A whiter shade of pale" — Procol Harum 049 — "Bridge over troubled water" — Simon and Garfunkel 050 — "Rapaz latino americano" — Belchior 051 — "Stayin alive" — Bee Gees 052 — "Já sei namorar" — Carlinhos Brown, Marisa Monte e Arnaldo Antunes 053 — "Noite do prazer" — Claudio Zoli 054 — "Sem pecado e sem juízo" — Baby do Brasil 055 — "Águas de Março" — Elis Regina e Tom Jobim 056 — "Guantanamera" — José Fernandez Diaz 057 — "Encontros e despedidas" — Maria Rita 058 — "Bandolins" — Oswaldo Montenegro 059 — "Espanhola" — Sá, Rodrix e Guarabira 060 — "Paisagem na janela" — Lô Borges 061 — "Um dia de domingo" — Gal Costa e Tim Maia 062 — "Me dê motivo" — Tim Maia 063 — "Samurai" — Djavan 064 — "Andança" — Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi 065 — "Coração de estudante" — Milton Nascimento 066 — "Ronda" — Paulo Vanzolini 067 — "Wave (Vou te contar)" — Tom Jobim 068 — "Sampa" — Caetano Veloso 069 — "Cidade maravilhosa" — André Filho 070 — "Papel machê" — João Bosco 071 — "We are the champions" — Queen 072 — "Per amore" — Zizi Possi 073 — "Aquele abraço" — Gilberto Gil 074 — "Só tinha de ser com você" — Tom Jobim 075 — "Pela luz dos olhos teus" — Tom Jobim e Miúcha 076 — "Meu erro" — Paralamas do Sucesso 077 — "Pais e filhos" — Legião Urbana 078 — "Deixa a vida me levar" — Zeca Pagodinho 079 — "Wonder wall" — Oasis 080 — "Chão de giz" — Zé Ramalho 081 — "Juventude transviada" — Luiz Melodia 082 — "Ó Paí, ó" — Caetano Veloso 083 — “I will survive” — Gloria Gaynor 084 — "A luz de tieta" — Caetano Veloso 085 — "Paranoid" — Black Sabbath 086 — "Admirável gado novo" — Zé Ramalho 087 — "Baby" — Caetano Veloso 088 — "Tigresa" — Caetano Veloso 089 — "O que é, o que é" — Gonzaguinha 090 — "Clocks" — Coldplay 091 — "Canteiros" — Fagner 092 — “Paralelas” — Belchior 093 — "À francesa" — Marina 094 — "Tears in heaven" — Eric Clapton 095 — "Californication" — Red Hot Chilli Pepers 096 — "Eu nasci há dez mil anos atrás" — Raul Seixas 097 — "Aquarela" — Toquinho e Vinícius de Moraes 098 — "Chuva de prata" — Gal Costa 099 — "Garota nacional" — Skank 100 — "Faz parte do meu show" — Cazuza
Viu uma injustiça? Aquela canção chatérrima ficou de fora? Como vocês podem perceber, a lista só agrega músicas que são realmente boas. A faixa “You’re beautiful”, de James Blunt, por exemplo, cansou nossos ouvidos – mas sempre foi horrenda.
Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).
Martha Mendonça
é jornalista e escritora do Rio de Janeiro.
Nelito Fernandes é jornalista, tem a mente aberta mas é heterossexual.
Gisela Anauate é repórter de Mente Aberta, autora do livro Dissonantes (sem editora, se alguém quiser, por favor, contate), sobre cinco músicos nada convencionais.