A idade e a experiência dão às pessoas certos privilégios. Encontrar e conversar com algumas pessoas, por exemplo, é o que de mais interessante a gente leva desta vida de jornalista – vida, aliás, tão agitada que não há espaço para tédio. Mas quero contar uma história para registro. Nesta vida de repórter, tive a sorte e o privilégio de ter visto ao vivo o tenor Luciano Pavarotti diversas vezes. Melhor ainda, pude entrevistar Luciano, como ele gostava que o chamassem, duas vezes. Uma delas por telefone – o que sempre é limitado – e outra pessoalmente. Foi esta uma ocasião especial na vida do repórter. No final de 1991, viajei a Santiago do Chile para entrevistar Luciano Pavarotti. Eu o conhecia pelas gravações desde a infância. Na minha casa, a ópera sempre imperou. Antes de eu nascer, a ópera já estava por lá, porque as famílias de origem italiana costumam ouvir ópera como se bebessem o vinho ancestral, como uma religião. Para mim, Pavarotti era uma entidade. Árias como “Una furtiva lacrima”, de Donizetti, entoada por Pavarotti nos anos 60, era o máximo da expressão. Era como se eu terceirizasse o choro e a tristeza, como se outro pudesse sofrer por mim. Pavarotti foi um dos cantores que me ensinou a gostar de ópera. Então lá estava eu, diante do mito. Ele vestia uma camisa berrante em tons de vermelho e branco, um lenço no pescoço e aquele olhar brilhante, que parecia dar início a um sorriso. Fiz uma bateria de perguntas ao ´cantor, meio nervoso porque eu sabia que o artista temperamental poderia interromper a conversa no momento que quisesse. Apesar de pontual, Pavarotti não gostava de marcar o tempo das entrevistas ou das conversas. Elas se esgotariam quando o assunto terminasse. então fiz as perguntas de sempre – estilo, a proliferação de tenores depois de seu estrelato, expectativa de cantar novamente no Brasil 12 anos depois de sua consagração no Rio e em São Paulo etc. Era um sujeito grande, de 1,80 metro de altura e outro tanto de largura. O cabelo levemente revolto e o cavanhaque lhe davam o aspecto de galã romântico tardio. Mas o que resta fixar é a paciência do grande astro para com o repórter, e o batalhão de outros repórteres que esperavam para ser atendidos. Pavarotti era um músico exigente e um ser humano generoso e simpático. Sorria com as perguntas que certamente se repetiriam naquela tarde e cumprimentou o repórter com um abraço afetuoso. Lembro com clareza daquele momento. A entrevista saiu bonita, na capa do caderno de cultura do jornal em que eu trabalhava. Quando voltei para São Paulo, ainda envolvido pelo primeiro concerto de Pavarotti da turnê da América do Sul, fiquei sabendo que eu iria ser pai. Batizei minha filha com um nome, claro, de ópera: Giulia. No Brasil, a partir de então, Pavarotti voltaria várias vezes. Mas a voz, mais frágil, não fazia jus aos agudos de antanho. No fim da carreira, o tenor viveu das glórias passadas. Quando lhe faltaram as forças vocais, pelo menos lutou pela popularização da ópera. Uma lágrima para o grande tenor do nosso tempo – e que fez parte da vida do repórter.
O babalorixá alagoano Pai Buby sempre teve ligações com o mundo musical. Agora, o sucesso de seus cultos o levou a retomar a carreira musical, interrompida por sua trajetória espiritual. Ele está lançando o CD Terra de Deus Repentista. O seu estilo vai do xote ao baião, desviando às vezes para balada e o samba. A canção “Feiticeiro Negro” é a música de trabalho e já está no Youtube. Preconiza a tolerância e o respeito aos cultos afro-brasileiros:
“Por que tantos desamores Contra os feiticeiros negros Que só querem levar flores Para Iemanjá
Rebater nos seus tambores Os açoites da vida E com a alma redimida Fazer festa no mar
Iemanjá Sobá, Miregun, Iyabá Senhora das Cadeias Odoiyá
Por que tantas palavras Contra os feiticeiros negros Que só querem liberdade Pra saudar Xangô
Relembrar nos seus tambores A história perdida E com a alma redimida Cantar em seu louvor
Xangô Agodô é Justiça e Amor Xangô Agodô, Kaô Kaô
Por que tantos preconceitos Contra os feiticeiros negros Se a cultura do amor Não discrimina cor
O navio negreiro já miscigenou E em cada negro tem um branco Que a princesa libertou
É hora de dançar Para o rei Nagô É hora de cantar O que Zumbi ensinou
Ojú Obá ô Zaze ê Ojú Obá ô Zaze ê Ô Zaze ê Ojú Obá Ojú Obá ô Zaze ê”
A música mistura toada sertaneja e ponto-de-umbanda. A voz grave de Buby é afinada e a música, singela e direta. E o interessante é que toca em um assunto importante: a intolerância religiosa. Pai Buby defende a umbanda e o candomblé, com toda a riqueza cultural e tolerância que essas religiões compreendem. O astro só aparece no final. É Pai Buby, bombando no Youtube.
Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).