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07/07/2007
Noites maldormidas De volta à década perdida

Ainda devem existir órfãos da Chiclete com Banana, ótima revista/gibi/panfleto/livro de cabeceira que o Angeli e uma galera editavam nos anos 80. Por isso, resolveram lançar uma edição definitiva para colecionadores, chamado "Antologia". Dividida em dezesseis fascículos. Acho realmente esquisito ter a palavra 'fascículo' na capa de uma Chiclete com Banana. Isso lembra mais, sei lá, livro de receitas que vende junto com jornal diário. Depois de dar uma olhada na revista, lembrei porque isso era tão divertido. Imagina, em 1985, clima de Nova República e tudo mais, e logo no editorial os caras desenham uma emboscada pro Pato Donald. Isso sim era rebeldia!!! :> Logo depois, a candidatura do Bob Cuspe, o punk mais escroto que já existiu, a prefeiito de tudo (????). E depois "Los Três Amigos" e "Rê Bordosa" e fotos-novela com gostosas querendo sexo, aquela coisa. Lendo isso tudo de novo, no começo do século XXI, dá impressão que todas as personagens são realmente ingênuas. Não só as personagens, mas também os autores. Eles querem parecer malvados e cínicos, mas na real, a impressão é que todo mundo ali acreditava que o Brasil ia melhorar, que a Guerra Fria iria acabar sem nenhuma hecatombe nuclear e que o Lula seria um bom presidente. No final das contas, percebo que eu mesmo sou um órfão dessa revista. E também que eu já me identifiquei com o Meiaoito, o último comunista. :>
Pra quem ainda quer um pouco de rebeldia em quadrinhos, recomendo fortemente Os Malvados (www.malvados.com.br). Tem palavrões e várias piadas porcas, então peça autorização para a sua mãe, caso você não tenha 18 anos ainda.
(Fabio Sabba) |
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05/07/2007
As lágrimas púrpuras de Oprah Winfrey

Em 1985, o diretor Steven Spielberg decidiu mostrar que também sabia fazer filmes “adultos”. A iniciativa se chamava A Cor Púrpura, longa-metragem inspirado em um livro epistolar de Alice Walker (ganhadora do prêmio Pulitzer), que reunina um elenco quase exclusivamente negro e apresentava ao grande público uma jovem chamada Whoopi Goldberg – já ouviu falar? O filme marcou também outra estréia cinematográfica, a de uma moça gorda, simpática e de nome tão estranho quanto sua colega: Oprah Winfrey. O trabalho de ambas foi tão bom que as atrizes novatas receberam indicações para o Oscar. Mais de 20 anos depois, a mesma Oprah – bem mais magra, famosa e milionária – moveu mundos para ver a tocante história criada por Alice Walker transformada em musical da Broadway. A empreitada deu certo: desde que estreou, há um ano e meio, The Color Purple tem registrado platéias cheias e colhido críticas favoráveis – além de ser uma rara montagem da Broadway com elenco exclusivamente negro (como Dreamgirls, 25 anos antes). O fato não é irrelevante. Poucas vezes se viu uma reunião de vozes tão potentes na Broadway como nesse espetáculo. Já de cara, o elenco encena uma missa gospel, com um canto poderoso, que enche o grande teatro com vozes incríveis. A solista Carol Dennis, por exemplo, sobe de tom sem esforço algum, mas canta tão alto que quase dá para acreditar que Deus está escutando e logo logo vai responder. Daí vem o drama de Celie, uma garota pobre e negra do zona rural, no sul dos Estados Unidos, que primeiro sofre todos abusos possíveis nas mãos do pai, para depois apanhar de Mister, seu marido grosseiro e maldoso. Seu alento é a irmã Nettie, mas Mister logo dá um jeito de separá-las – e sobra a Celie o horror de viver longe da única pessoa que realmente a ama.

Quando a peça estreou, Celie era vivida por LaChance, que levou o Tony de melhor atriz pelo papel. Desde abril último, a personagem é defendida por Fantasia Barrino (na foto acima), vencedora da terceira edição do reality show American Idol. Com apenas 23 anos, Fantasia surpreende com uma interpretação sólida e emotiva, ainda que sua (ótima) voz não tenha muita chance diante dos trovões vocais dos colegas de palco – como a opulenta NaTasha Yvette Williams e sua estrondosa Sofia, um dos poucos momentos cômicos de um musical sobre a tristeza. O ponto fraco do musical talvez seja a ausência de uma canção mais forte. Não que a música seja fraca; ao contrário, o score criado por Brenda Russell, Allee Willis e Stephen Bray traz uma boa amostra da música negra norte-americana, o que não é pouco. Mas falta um tema, algo que leve a platéia pela mão e fique na sua cabeça por um bom tempo. O público de The Color Purple , porém, não parece se importar muito com isso: composta maciçamente por afro-americanos, com expressivo número de senhoras elegantes e robustas, abanando furiosamente seus leques, a platéia diverte-se com o musical como se assistisse a uma novela: participa, reage, aplaude em cena aberta e solta um “isso mesmo!” quando Celie finalmente decide se rebelar e livrar-se das garras do marido. E que vai aos céus quando a peça acaba com a palavra “amém”. É o público de Oprah Winfrey, acostumado a chorar com as emotivas reportagens do programa de TV, e que agora chora comovido junto com a jovem atriz em seu triunfo na Broadway. Sim, The Color Purple é uma experiência que vale ser vivida ao vivo – mas não deixe de ver (ou rever) o filme.
(Denerval Ferraro Jr.)
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05/07/2007
As línguas de Paraty

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) demorou para começar nesse ano. Na quarta à noite, um show frio da Orquestra Imperial (em uma desempolgada jam session com João Donato) numa noite gelada, de poucos graus centígrados, fez com que a maioria dos presentes na cidade fosse dormir cedo. Pouco lembrou o frisson dos grandes shows dos últimos anos (Maria Bethânia, Chico Buarque, Paulinho da Viola...). A primeira palestra da quinta-feira, com o poeta paulista Fabrício Corsaletti, a contista gaúcha Veronica Stigger e a romancista carioca Cecilia Giannetti, todos muito nervosos com tanta gente à sua frente na Tenda dos Autores, não compensou para os que acordaram cedo. Depois deles, a mesa Uivos, com Chacal e Lobão, rendeu curtas gargalhadas. Os dois, o poeta e o músico, foram diversas vezes parceiros musicais. Os pontos altos foram, de fato, as canções berradas por Lobão e seu violão entre uma conversa e outra sobre aventuras lisérgicas, ditadura militar e, claro, indústria fonográfica. A literatura só começou a valer mais à pena do que o belo dia de sol que fez por aqui com a mesa que reuniu Augusto Boal, Eduardo Tolentino e Marco Antonio Braz. Principalmente por Boal, que leu um inspirado texto sobre sua relação com Nelson Rodrigues, o homenageado do ano da Flip (a produção prometeu divulgar até o fim da feira a íntegra do texto em http://www.flip.org.br). Mais tarde, o jornalista Arthur Dapieve e o escritor inglês Will Self deram um show particular, o primeiro tentando competir com o gênio forte e a língua ácida do segundo. Fechando a noite, Kiran Desai e José Eduardo Agualusa fizeram um agradável bate-papo sobre identidade cultural para autores itnerantes. Explica-se: ela é uma indiana radicada nos Estados Unidos (com uma rápida passagem pela Inglaterra); ele é angolano, mas divide seu tempo entre Portugal, onde estudou, e Brasil, terra de sua mãe. É mais ou menos o que acontece com a cidade nessa época. Paraty (grafada com "y" por decreto municipal) foi um dos principais portos de chegada dos escravos negros africanos na época do império. Hoje, vive uma decadência bucólica com poucos moradores, parece perdida no tempo. Mas uma vez por ano, vira a capital mundial da literatura. E fala-se todas as línguas por aqui.
Pintou um clima
Diálogo quente entre o jornalista Arthur Dapieve e o falso rabugento escritor inglês Will Self. Durante toda a mesa "Sobre macacos e patos", os dois tiveram uma espécie de debate de gênios, provocações cheias de humor entre a perspicácia do primeiro e o (mau) humor britânico do segundo. O outro convidado da mesa, Jim Dodge (na foto com Self), ficou de fora da contenda. Self - Eu acho que está rolando um clima entre nós, Dapieve. O que vai ser um problema, já que eu sou predominantemente heterosexual. Não sei sobre você. Dapieve - Eu também, sou casado. Minha mulher está ali na platéia, assistindo. Self - Então diga tchau a ela, porque nós vamos juntos para o campo. Vejo você vestido de bailarina, cortando bananeiras para nós, eu olhando para a cena e gozando. Will Self é autor de pérolas como o livro "Cock and Bull", sobre um homem e uma mulher que, numa estranha metamorfose kafquiana, desenvolvem os órgãos sexuais do sexo oposto em suas anatomias. (Rafael Pereira, de Paraty)
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| Luís Antônio Giron |
| Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record). |
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