02/07/2007
Um Duran insuspeito

Quando um convite de uma exposição do fotógrafo JR Duran chega até você, imagina-se uma galeria repleta de fotos de beldades nuas.
Mas meu amigo Duran tem seus momentos de reflexão na vida.
O texto, de sua autoria, explica bem as imagens captadas pelo autor.
"De acordo com San Juan de la Cruz, o melhor a fazer para que a alma alcance rapidamente o máximo da espiritualidade é resistir às tentações que são: o mundo, o demônio e a carne. O mundo é o inimigo mais fácil de se resistir, o demônio o mais complicado e a carne o mais persistente deles."
"Percebi que em meus trabalhos fotográficos, sejam os que sejam, estas três tentações estão sempre presentes. A exposição a ser realizada na Galeria Leme, que se chama 'Cautelas', vai ao encontro destas tentações percebidas através de um recorte que me aproxima delas," diz JR Duran.
Tem fotos de beldades também. Senão, não seria o verdadeiro Duran.

Galeria Leme
" CAUTELAS"

Abertura: 27 de Junho

(Marcos Marques, diretor de arte de Época)

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29/06/2007

Em vez de cigarro, maço de livros


Os ingleses boêmios estão histéricos com mais uma proibição pesando sobre suas noites – e dias. A partir de 1º de julho, será proibido fumar em locais públicos. A lei vale para restaurantes, livrarias, estações, hotéis, pubs etc. em toda a Grã-Bretanha. O comentário se repete nas ruas: “Já não bastasse todo mundo ter de sair dos pubs às 23 horas, agora essa!”
Para minimizar os sofrimentos - ou, pelo menos, desviar a atenção - dos fumantes tradicionalistas (diz-se que se fuma em Londres desde 1492), a pequena editora Tank acaba de lançar uma coleção de livros em formato de maço de cigarro. Inspirado nas caixinhas de Marlboro, o formato pode servir como caixinha de surpresa. Por exemplo, no metrô. O sujeito pega o maço, as pessoas pensam que ele vai infringir a lei e, de repente, está lendo Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Além deste, outros cinco títulos fazem parte do primeiro lançamento da editora nesse formato. E todos são clássicos da ficção curta: A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, Dr Jekyll e Sr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, Contos, de Rudyard Kypling, Metamorfose, de Franz Kafka, e As Neves do Kilimanjaro, de Ernest Hemingway. Aliás, boa parte desses escritores era fumante compulsivo.
O idealizador da coleção é Masoud Golsorkhi, designer e diretor criativo da Tank. Ele elaborou o projeto gráfico dos livros-de-bolso em formato de maço há três anos. Para ele, o design de maço de cigarro é uma façanha visual e um dos marcos do século passado.
Dei uma boa olhada nos livros em Londres. Eles são bonitinhos, fashion e o corpo das letras até que é legível, mas definitivamente são difíceis de manusear. Não servem como substituto nem de livros nem de cigarros.
Cada volume sai por 6,99 libras (28 reais), um preço salgado até para os padrões britânicos – para tão pouca quantidade de palavras por título. Mas Glosorkhi quer atingir o leitor jovem, que gosta de praticar pequenas transgressões.
Daqui a pouco, vão inventar o livro em forma de copo de chope.


(Luís Antônio Giron)

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26/06/2007
As calçadas do Rio

O mar, as montanhas, a paisagem humana. Não bastasse isso, quem anda pelo Rio de Janeiro ainda tem sob seus pés verdadeiras obras-primas. O leitor de "O Rio que eu piso" termina suas páginas com esta certeza. O livro, da arquiteta Iolanda Teixeira e do fotógrafo Bruno Veiga, retrata as calçadas cariocas, mosaicos de pedras portuguesas nas mais diferentes formas. São 180 registros desde detalhes em close até grandes áreas vistas do alto. Além deles, um bom histórico sobre a chegada desta técnica no Brasil.
A edição de "O Rio que eu piso" é bilíngüe - um acerto da Editora Memória Brasil, visto o movimento turístico da cidade. Quem leva do Rio uma lembrança como esta terá feito ótimo negócio.

(Martha Mendonça)







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26/06/2007
Quando os azuis amarelaram



How to be a Megastar 2.0, o show que o Blue Man Group trouxe ao Brasil, é de encher os olhos e os ouvidos. No palco do Credicard Hall (e nos corredores da platéia também), em São Paulo, os três homens azuis batucaram em canos de PVC, dançaram, engoliram bolas de tinta e encantaram o público com suas expressões faciais curiosas e inocentes, de quem não está entendendo nada, mas quer aprender tudo. Atrás deles, uma banda de rock poderosa e barulhenta com guitarristas, percussionistas, cantores e baixistas performáticos. Tudo isso potencializado por néons coloridos, luzes estroboscópicas, explosão de tiras de papel, telão com animações e interação com o público. Um megashow, sem dúvida. Mas por que saí de lá com uma sensação de que algo estava errado? Afinal, nenhum deles sujou minha roupa de azul nem me enfiou uma câmera goela abaixo (sim, os homens azuis fizeram praticamente uma endoscopia com transmissão ao vivo pelo telão em um jovem da platéia). O que me incomodou foi a concepção supostamente irônica do How to Be a Megastar 2.0. O show pretende ser uma brincadeira com o mundo do entretenimento, mas os homens azuis amarelaram na sátira.

No início do espetáculo, os azulões compram um kit que promete transformá-los em estrelas da música. O kit roda uma espécie de software no telão, que traz ironias com os clichês da indústria fonográfica – como o fato de grande parte dos popstars serem musicalmente incompetentes e pouco originais. O software também ensinou aos homens azuis a fazer movimentos repetitivos (como o tradicional sinal roqueiro de levantar os dedos indicativo e mindinho). Os aprendizes de roqueiros estimularam a platéia a fazer os mesmos movimentos, o que me causou um pouco de desconforto. Peraí, é para criticar ou para fazer igual? Há duas semanas, fiz uma entrevista com Chris Wink, um dos criadores do Blue Man Group (hoje a trupe é formada por 60 homens azuis espalhados pelo mundo), em que ele me disse: “O show é ao mesmo tempo uma sátira e um tributo aos grandes concertos de rock”. O grave é que essa contradição tornou o negócio um tanto esquizofrênico, ora criticando, ora reforçando todos os chavões da indústria cultural. O recurso cômico serviu para dizer algo como: tudo isso é clichê, é lixo. E vocês consomem essa porcaria. Continuem consumindo. Isso, todo mundo pulando! Bizarro. Se o espetáculo não tivesse pretensões pseudo-críticas e se assumisse como um show de rock, seria muito mais feliz.

(Gisela Anauate)

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Luís Antônio Giron
Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).
 
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