20/06/2007
O inesgotável cabaré de Liza



Depois de ter passado por muitas e ingerido todas, era de se esperar que Liza Minnelli aparecesse combalida em sua volta aos palcos brasileiros, após 15 anos longe do país. Sua apresentação no Tom Brasil, São Paulo, no dia 18, porém, mostrou que a velha diva pode ter balançado, mas está de pé. Com apenas uma banda de dez músicos e um fundo branco atrás de si, Liza entrou sem muito alarde e cumpriu a promessa: deu à platéia uma saborosa amostra da tradição de shows da Broadway.
A história da senhora ajuda, e muito: filha do cineasta Vincent Minnelli e da atriz-cantora Judy Garland, Liza nasceu na realeza de Hollywood e cresceu na maior indústria de entretenimento do mundo. Mas além das glórias do teatro, cinema e música, Liza acumulou uma generosa dose de encrencas, como vícios (álcool e cocaína eram o forte do menu), entradas e saídas de clínicas de reabilitação, processos, casamentos desastrosos e graves problemas de saúde: em 2000, passou por uma cirurgia nos quadris e livrou-se, por pouco, de ficar confinada a uma cadeira de rodas.
Nada disso veio ao palco na segunda-feira. Desde que entrou em cena, Liza tomou a platéia pelas rédeas e a levou aonde queria: cantou, dançou, brincou e falou o quanto pôde. “Estou muito feliz de estar de volta ao Brasil. Vocês são minha família”, disse, entre aplausos, urros de “I love you” e muitos assovios. Não foram raras as ocasiões em que foi aplaudida em plena execução de uma canção, fosse pela intensidade da interpretação, pelos gestos dramáticos ou pelas notas fortes e longas que saíam daquela senhora divertida. Sim, sua voz perdeu a força nos agudos, mas continua dando conta do recado e, por vezes, surpreende pelo alcance.
Dividido em duas partes (depois de 40 minutos, a diva veterana dá um tempinho para o segundo round e troca de figurino), o concerto traz sucessos, como “I Can See Clearly”, “Maybe This Time”, Cabaret” e “But the World Goes Round.” Traz também um trecho dedicado à sua madrinha, a compositora e escritora Kay Thompson, o único momento em que a cantora divide o palco com um quarteto vocal, tão americano, mas tão americano que só faltaram as bandeiras listradas na mão e o brasão da águia no peito. Quando apresenta sua banda, ela revela que seu baterista, Bill Bill Lavorgna, foi também o baterista de sua mãe. Dinastias musicais se completam no palco. Por fim, o delírio, com o megahit “New York New York”.
A platéia delira, a cantora sorri, deixa o palco e volta para o bis. Um presente, na verdade: uma versão à capella de “I’ll Be Seeing You”, cantada com emoção genuína para uma platéia boquiaberta e apaixonada. Liza espera os músicos deixarem o palco para, enfim, sair de cena, de braços dados com o veterano Lavorgna. O cabaré de uma só diva se encerrou com cortinas vermelhas. E já deixou saudade.





Uma nota pessoal: quando entrevistei Liza Minnelli por telefone, semanas antes do show em São Paulo, a cantora me disse que ficaria “chateada” se eu não fosse vê-la no camarim. Achei que era apenas um gesto de simpatia, mas no intervalo do concerto, a assessora veio até mim e confirmou meu nome numa restrita lista de 20 pessoas. Acabado o show, passei na frente de uma confusa fila de celebridades e grã-finos e fui colocado para dentro.
Na sala de espera, nada de famosos, apenas amigos e os convidados da cantora. Ela chegou, mais uma vez nos braços de Lavorgna. O contato foi breve, com a diva cansada e rouca. “Você gostou mesmo do show?”, perguntou, segurando minhas mãos, com aquele famoso e irresistível sorrisão. Sim, Liza, todos amamos. Antes de sair, meu momento "fã": tirar uma foto com a cantora pode parecer um mico, eu sei. Mas foi a chance única de abraçar uma lenda.
E eu adorei.

(Denerval Ferraro Jr.)

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Luís Antônio Giron
Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).
 
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