19/06/2007 Os vôos erráticos da Gaivota Que semelhança pode haver entre uma gaivota e um repolho? Quase nenhuma, não é mesmo? Esta é também a semelhança entre a peça A Gaivota do russo Anton Tchékhov e a montagem Gaivota do diretor carioca Enrique Dias. A peça, subintitulada “Tema para um conto curto”, está em cartaz no Sesc Pinheiros (rua Paes Leme, 195, tel. 11 30959400, ingressos de R$ 10, 00 a R$ 20,00 ) até 15 de julho, de sextas a sábados às 21h e domingos às 18h. O drama sobre a decadência de uma atriz, do autor russo, foi um fracasso na estréia, em 1896. O diretor Enrique Diaz e elenco tratam de triturar a peça, até se transformar numa espécie de ensaio em palco. Durante quase duas horas, a trupe de Diaz - ao todo sete atores, o diretor, Bel Garcia, Emílio de Mello, Felipe Rocha, Gilberto Gawronski, Isabel Teixeira e Mariana Lima - discutem o ato de representar em uma suposta montagem de A Gaivota. Tanto que o primeiro nome pensado por Diaz foi Ensaio Gaivota, “no sentido de uma pesquisa de narrativa, de descontrução de uma relação particular com os clásicos, com os objetos e sobretudo com o tempo”, como tenta explicar o diretor. A idéia central é transpor no tempo a situação básica da peça, revelando o espaço que separa o século XIX e o século XXI: cem anos de descobertas e revoluções, inclusive no teatro. O que sobra do Tchékhov original se resume a algumas cenas cortadas e estilhaçadas. Os atores trocam os papéis, embaralham as falas, discutem o estatuto da representação, fazem metalinguagem a partir do original. O efeito no espectador é de confusão. Experimentalismo é isso aí. Hoje, nas encenações brasileiras, vigora a mania de usar um texto clássico para subvertê-lo, colocar elementos que partem do cérebro do diretor e dos atores. Muitas vezes, isso é desculpa para não encarar o rigor do texto dramático original, e fazer chanchada à custa dos clássicos. Até na ópera esse tipo de montagem virou moda – e obras canônicas acabam ridicularizadas para a gargalhada geral. Estamos, afinal, no Brasil. A montagem de Diaz e companhia padece um pouco desse problema. Mesmo assim, há nela qualquer coisa de estimulante, até porque experimentalismo anda fora de cartaz nesse mundo cada vez mais formatado. Diretor e elenco buscam o tempo todo o espanto e o diálogo com o público. O audiório em anfiteatro permite o contato maior. É possível ver os atores de perto, trocando olhares e fazendo expressões que são impossíveis de serem notadas num palco italiano convencional. É o que fica dessa Gaivota. Mas não espere ver a peça de Tchékov. É pura farsa à la Enrique Diaz. O dramaturgo russo é conciso e direto. O diretor carioca é barroco, metalingüístico e difuso. A mistura resultante é heterogênea, senão bizarra. Por falar nisso e em tempo: um dos elementos cênicos, além de tomates e punhados de terra, um repolho representa a gaivota.
O segundo dia do Sónar, festival de música avançada e multimídia que acontece em Barcelona, foi ainda mais agitado. Com mais público do que no dia de estréia, algumas apresentaçoes ficaram lotadas a ponto da pista ter que ser fechada para nao deixar mais ninguem entrar. Na programaçao diurna, nao só DJs mas também bandas fizeram o público se mexer muito mais do que ontem. A banda finlandesa Accu que tocou no maior palco – SonarVilage - fez um som muito dançante que parecia um trance do começo dos anos 90, mas tocado ao vivo, sem computadores. Sem falar na flauta à la Jethro Tull que acompanhou algumas músicas. Sucesso absoluto. Outro destaque foi o projeto Nettle capitaneado pelo DJ Rupture acompanhado de músicos tocando percussao, violino, cello e oud (um instrumento árabe de 11 cordas). Grime e outros gêneros de música urbana contemporânea eram misturados com música árabe clássica e sons folk do norte da África. Intimista e forte ao mesmo tempo. Foram ovacionados pelo público. Entre os sons para iniciados, assisti parte da apresentaçao dos americanos do Sunn O))). Nao foi para qualquer um, aliás muita gente que tinha lotado a pista no começo foi saindo do local já aos primeiros acordes. Eu nao fiquei até o final. O show pode ser descrito como uma cerimônia de ruído chamânico, sons monolíticos e liturgia demoníaca. Metal pesado, obscuro mesmo. Também fui ver o baterista inglês Charles Hayward, que mistura a sua voz com percussao e eletrônica. Mas foi a programaçao noturna que realmente fez o público dançar até se acabar na manha desse sábado. O grande show da noite foi a segunda apresentaçao do trio nova-iorquino Beasty Boys no festival. A pista pulou até nao poder mais ao som de hits como Intergalactic e Sabotage. Essa última, aliás, foi gentilmente dedicada ao presidente americano George W. Bush. Entre os artistas da terra do sol nascente, houve altos e baixos. O destaque ficou para o show de rock-pop-psicodélico dos japoneses do Cornélius. Sua música eletrizante era acompanhada por vídeos multi-coloridos perfeitamente sincronizados. Já “o show” das meninas do trio Romantica se resumiu a um pseudo-strip-tease. Os DJs alemaes do Modeselektor tocaram techno com pitadas de electro, glitch e hip-hop, e nao deixaram a pista cair depois da apresentaçao do Beasty Boys. Os franceses do Justice fizeram o clima rave tomar conta da área aberta SonarPub. O final foi apoteótico, com o público cantando e pulando ao som da inesperada Killing in the Name Of, do Rage Against the Machine. Foi de lavar a alma. Ouça os shows do Sónar na LastFm:
Uma hora e quarenta minutos de atraso. Esse foi o tempo que a platéia aguardou para a chegada de Lauryn Hill. Em compensação, o show que estava previsto para durar 90 minutos, durou duas horas e meia. Ela só parou de cantar quando quis. Um presente para os fãs que se amontoaram aos pés da diva do hip hop, que saracoteou de um lado para o outro todo o tempo, num palco que parecia pequeno diante da sua energia. Apesar de estar há quase dez anos sem gravar novidades, sua forma continua impecável. Não só sua performance física, mas principalmente vocal agitou a platéia, que cantou em coro os sucessos Killing me softly e Ready or not, gravados por Lauryn enquanto integrante do Fugees, banda que a lançou para o mercado musical na década de 1990. Seu disco solo, Miseducation, também contribuiu com That thing. E comoveu, com To Zion, música escrita por Lauryn quando estava grávida de Zion, um de seus quatro filhos com Rohan Marley. E por falar em Marley, a musicalidade do ritmo jamaicano e suas influências estiverem presentes na voz e nos improvisos de Lauryn, que cantou Zimbabwe e Hammer, ambas de Bob Marley. Acompanhada de uma banda de dez músicos e três backing vocals, Lauryn apresentou-se em Porto Alegre (RS) e Alegre (ES). Hoje haverá mais uma apresentação no Tom Brasil (R$ 200 a R$ 380 - 11-21632000), em São Paulo. No sábado segue para o Rio de Janeiro, onde se apresenta no Viva Rio (R$ 180 a R$ 340- 21-21696600).
Pra quem vai ao show hoje ou amanhã e quiser acompanhar música a música, segue o set list de ontem:
Introdução: jam session no estilo Ginger Baker Lost Ones Final Hour Ex-Factor Zion Cuckoo Iron Lion Zion Trenchtown Zimbabwe Hammer How Many Mics Fu Gee La Zealots Ready or Not Killing me Softly Lose Myself That Thing
15/06/2007 Biquínis, DJs, e sons distorcidos no primeiro dia do Sónar
Começou a maratona musical na capital da Catalunha. Na estréia do programa diurno do festival, o clima foi de clube no verao: o chao das tendas abertas foi coberto com grama sintética e muita gente desfilou de havaianas brasileiras, biquínis e bermudas. Um cenario descontraído ocupou os prédios modernos do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (Macba) e do Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB), bem no meio do Bairro Gótico.
Nas duas pistas externas, a SonarVillage e a SonarDôme, rolaram os sons mais dançantes com DJs e bandas ao vivo. O DJ inglês James Holden, com sua música eletrônica melódica, e o espanhol Gus, velho conhecido das pistas de Barcelona, foram os que mais animaram o público composto por modernos do mundo todo. Ainda na Dôme, a japonesa Piana conquistou a simpatia do público com sua timidez e voz quase infantil à la Bjork. Sua música eletrônica foi acompanhada de uma violinista e Piana também tocou vibrafone.
As pistas localizadas dentro dos museus Macba e CCCB foram reservadas para os sons mais experimentais. No Escenario Hall, o chinês Sun Kei (aka 718) misturou composições eletroacústicas com sons de orgao. Tenho que confessar que achei um tanto monótono. Já a dupla chinesa White fez uma apresentaçao com ruídos minimalistas e sons de guitarra distorcidos. Mas o ápice do som perturbador foi o do americano nascido em Taiwan C. Spencer Yeh, chamado de Burning Star Core. Ele fez muito barullo com seu violino… tanto que o segurança do festival fazia caretas com o som que ficava cada vez mais distorcido.
Surpresas interessantes divertiram aqueles que foram visitar a exposiçao de arte multimídia SonarMàtica, no CCCB. A obra Tool´s Life, por exemplo, feita pelos criadores japoneses Motoshi Chikamori e e Kyoto Kunoh – do projeto chamado minim++ - era composta de utensilios dispostos numa mesa iluminada com uma luz forte que deixava as sombras dos objetos bem definidas. Até aí nada de especial. Mas cada vez que alguém tocava num objeto, sua sombra começava a se mexer, imagens de animais se formavam e “saiam andando” pela mesa. Um efeito mágico e encantador. Outra obra que divertiu o público foi o Shadow Monsters, do inglês Philip Worthington. Ela lembra aquele jogo de sombras que fazemos quando colocamos as maos em frente a uma luz para fazer formatos de bichos. Com o uso de efeitos de computaçao gráfica, as sombras viram monstros.
Já na programaçao da noite, o show instrumental do Beasty Boys agradou muito o público. Eles tocaram algumas músicas de seu novo disco The Mix Up, incluindo uma chamada Suco de Tangerina, com direito a uma projeçao de imagens do trio nova iorquino no que parecia um boteco carioca. O projeto Narod Niki, do DJ chileno Ricardo Villalobos, colocou oito DJs com seus lap tops lado a lado, fazendo música ao vivo. Uma verdadeira jam eletrônica.
14/06/2007 O palhaço russo "Você riu ou chorou?" Essa é a primeira pergunta que alguns amigos me fizeram ao saber que havia assistido ao Slava's Snow Show, o palhaço que abandonou o Cirque du Soleil para se dedicar a sua própria arte. Mas choro ou riso é muito pouco para explicar o turbilhão de sensações sentidas pelo espectador que faz parte da platéia de Slava. É mais que isso. A fruição é inevitável. O entrar na brincadeira, idem. Quando você menos espera, o pequeno palhaço sutilmente ocupa todo o palco com sua presença. Acompanhado de três figuras altas e uma baixa, Slava constrói ao longo de esquetes uma interação surpreendente com a platéia, que acaba tornando-se parte integrante do show, a ponto de em alguns momentos ser molhada pelo palhaço ou se ver enlaçada em um emaranhado de infindáveis fios de algodão. Os poucos diálogos que permeiam a apresentação não significam nada, apesar de fazerem toda a diferença. Com grunhidos, gritos e resmungos, o quinteto comove e faz sorrir. Papéis picados fazem as vezes da neve, que é acompanhada de ventania, sol e chuva. O pano de fundo é uma trilha sonora sensível, com algumas músicas de vertente retrô, que remetem aos tempos da vitrola e até uma produção brasileira, a excelente versão original de "Mas que nada", de Jorge Ben. Diante do espetáculo, é instigante pensar como o simples encanta. Em tempos de super-produções hollywoodianas, os blockbusters ficam no chinelo diante da estética inventiva e ingênua de Snow Show. Com truques de luz, cenário e vestimentas simples, o palhaço russo e seus companheiros de travessuras deixam uma platéia repleta de adultos como se fossem crianças. Nesse caso o muito não interessa. O pouco sim, faz toda a diferença. Inusitado, emocionante, simples, cativante. Ainda assim, com tantos adjetivos, eles não são suficientes para descrever e relatar a emoção do espectador. Para viver todas as sensações, só mesmo fazendo parte do show do palhaço triste.
Observação: é diante de um show como esse que percebo a importância do teatro, do cinema e das artes em geral na vida das pessoas. Penso que todos deveriam ter acesso irrestrito à cultura, às emoções e aos sentimentos que ela proporciona. Ter direito de chorar, de rir, de se emocionar, de ser criança de novo, nem que seja por alguns momentos. Independente de ter ou não condições financeiras. Infelizmente não é assim que o sistema funciona. Os ingressos de Slava's Snow Show custam entre R$ 80 e R$ 160. A temporada vai até o dia 24, no Citibank Hall, em São Paulo.
14/06/2007 Histórias de quem vive de inventá-las no Museu da Pessoa
Preocupado em registrar todo tipo de histórias de vida, o Museu da Pessoa decidiu investir dessa vez nas narrativas daqueles que são conhecidos por contá-las. Mas não são apenas escritores portugueses, brasileiros e africanos de língua portuguesa que estão no projeto Memórias da Literatura. No site você também encontra pessoas comuns. Ou nem tão comuns assim. O taxista que fez um blog com as histórias que ouvia nas corridas, o ex-pedreiro que construiu uma biblioteca visitando a Academia Brasileira de Letras, o dono do bar que observa grandes obras nascerem regadas à cerveja, o professor de oficinas de literatura, todos estão lá em programetes de cinco minutos diários, de segunda à sexta-feira.
O projeto foi lançado em 30 de abril desse ano, em parceria com o Museu da Pessoa de Portugal. Além dos podcasts acessados pelo site do museu, é possível ouvir os programas de cinco minutos nas rádios Cultura AM de São Paulo, Difusora AM de Jundiaí e Câmara, de Brasília.
Em linguagem acessível e atraente a leigos e apaixonados, escritores como os brasileiros Evandro Affonso Ferreira e Marcelino Freire e os angolanos Ondjaki e José Eduardo Agualusa contam suas preferências literárias, sua história de vida, a literatura de seus países, entre outros temas. Literatura e futebol, literatura e viagem, literatura e leitura no ônibus estão entre os variados temas abordados nos programas.
É cumprindo contudo o objetivo inicial do Museu - o de mostrar que todas as histórias de vida têm importância e, mais do que isso, são agentes de tranformação - que o programa pode surpreender o ouvinte. Fique atento aos relatos daqueles personagens anônimos que fizeram o amor pelas histórias e pela literatura se tornarem os protagonistas de suas vidas.
13/06/2007 O banana e a jaboticaba Realmente não consigo ver grande imbróglio em torno da inspiração da canção “Um Sonho”, de Caetano Veloso. A coisa é simples e todo mundo já sabe: em particular, ele confessou à atriz Luana Piovani que ela era a musa. Aí Luana se gabou numa entrevista, deixando escapar o orgulho de ter servido como inspiração da música. Caetano negou a informação, chateado com a quebra de sigilo. E Luana contra-atacou, chamando o músico baiano de “banana de pijama”. Caetano respondeu com bom humor, dizendo que esse tipo de expressão era “bem a Luana”. E ontem, Caetano deu o braço a torcer. Durante o show Cê, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, declarou: "Pela primeira vez, vou dedicar essa música à Luana”, disse. “Eu nunca a desmenti, como disseram por aí. Há dois anos, quando compus a música, mostrei a canção a ela e disse que era em grande parte inspirada nela. Ela deveria ter me telefonado antes, mas não". Compreensível, não? O que não entendo é como funciona a cabeça dos artistas. A música “Um Sonho” é bonita, mas um tanto bizarra, concretista, como nesta passagem:
“lua toda a minha chuva todo o meu orvalho caí sobre ti se desabas e espelhas da cama a maravilha-luz do meu céu jabuticaba branca”
Em outras palavras, Caetano chama Luana de “jabuticaba branca” - o que não deixa de ser engraçado, nessa refrega (in)frutífera, em que cabem bananas e estranhas jabuticabas brancas, talvez partente do nabo. Bom, enfim, Luana gostou, jactou-se, reclamou a autoria da inspiração (se isso é possível). Mas o que não dá para alcançar mesmo é como Caetano diz ter-se inspirado parcialmente em Luana. Existe uma mezzo-diva, como numa pizza, mezzo-calabresa, mezzo-margherita? Ou talvez diva-dois-terços, não se sabe. A crer em Caetano, resta saber quem o inspirou no outro pedaço da canção.
Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).