Um dos grandes talentos da pintura brasileira, Niobe Xandó foi autodidata e sempre recusou vínculo com qualquer corrente artística. O resultado em sua obra são trabalhos antenados com seu tempo (desde a década de 40 até os anos 2000), mas extremamente originais. Dois espaços da Pinacoteca de São Paulo abrigam 182 obras de Niobe, entre telas e objetos pintados. O curador Antônio Carlos Abdalla identificou 13 fases diferentes no trabalho da pintora paulista. Há desde uma fase inicial de figuras expressas, passando pelo tema surrealista de flores fantásticas, pelo letrismo (com símbolos) e pelo abstracionismo puro dos traços geométricos. No fim dos anos 90 a pintora retorna ao figurativismo, mas, doente de Alzheimer, pinta seus desenhos sem rosto. A fase final de Niobe Xandó – que hoje tem 92 anos – é uma mistura de todas as outras. “É seu testamento artístico”, diz Abdalla.
Confira: Niobe Xandó - A Arte de Subverter a Ordem das Coisas - até 24 de junho na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Pça da Luz, 2 – fone 11 3229.9844 Aberta de terça a domingo, das 10 às 18h. R$ 4,00 e R$ 2,00 (meia). Grátis aos sábados
Zodíaco, o novo suspense de David Fincher, em cartaz nos cinemas brasileiros, foi um fracasso nos Estados Unidos. É compreensível: o público americano não gosta de filmes que façam pensar além dos modelos lineares de trama. É o longa-metragem ais denso do diretor de Seven e Clube da Luta, dois filmes cultuados do suspense de violência. Zodíaco não tem pouco ou nada a ver com eles. Trata-se de um filme de reconstituição de crime, perícia e a sempre desoladora realidade. Zodíaco é baseado no best-seller homônimo de Robert Graysmith, um livro de memória e investigação lançado originalmente em 1990, agora traduzido no Brasil. Graysmith era cartunista do jornal San Francisco Chronicle quando decidiu entrar de gaiato na investigação – afinal, era um fantástico por decifrar códigos. O filme pode ter um argumento atraente para o espectador mediano, pois reconstitui a série de 37 crimes reais praticados por um serial killer, Zodíaco, no norte da Califórnia em 1969, caso que resultou insolúvel e acabou desmoralizando o principal investigador da polícia, David Toschi. Mas o chamariz termina aí. Na verdade, quem pensar em uma reprise de Seven, vai se decepcionar. Fincher é fiel ao livro e centra a câmera não nos crimes em si, mas na investigação sobre os crimes. Há cenas de extrema violência, até porque se trata de uma violência mais profunda. É o caso do casal esfaqueado à beira de um lago pitoresco no Vale de Napa. A cena é reconstituída em toda a sua crueza – em detalhes que fogem da glamourização da violência tão comum no cinema de hoje. O que importa para a seqüência não é o jorro de sangue, mas as circunstâncias que desnorteiam a polícia – fato que se repete em outros crimes, marcados pela gratuidade da situação. Os crimes do Zodíaco entraram para o folclore policial americano por uma particularidade: o assassino enviava para os jornais cartas cifradas em um código misto e marcava telefonemas ao vivo em redes de televisão de San Francisco. Tudo indicaria uma gênio do Mal, mas, como se trata de realidade, o criminoso só escapa de ser desmascarado porque os três profissionais que estão em seu encalço - Toschi (Mark Ruffalo, idêntico ao policial real, que, aliás, vive em San Francisco), o repórter Paul Avery (Robert Downey Jr., em ótima caracterização como jornalista largado e maluco) e o cartunista Graysmith (interpretado por Jake Gyllenhaal) – não conseguem elaborar as sinapses necessárias para descobrir o culpado. Enquanto levava a investigação, Toschi inspirou os investigadores durões da série de TV San Francisco Urgente e os filmes Bullit e Dirty Harry - Na Lista Negra. Mas, em meados dos anos 70, ele forjou uma carta, imitando o código do Zodíaco, para reabrir o caso – e foi desmascarado. O criminoso Zodíaco é mostrado no filme como um assassino da vida real. Ele planeja se promover pelos jornais, rádio e televisão, comete muitos erros, não há uma lógica para os crimes, e tudo se embaralha. Ele escapa porque nada garante que a verdade prevalecerá. Na realidade, o suposto herói acaba sendo derrotado e expulso da instituição. Isso é realidade. E é o material mais interessante de um filme, bem montado e com fotografia fosca, que mantém o espectador em estado de dúvida por quase três horas. Os segredos do mundo real são de polichinelo - e muitas vezes jamais descobertos.
Os cinco capítulos da minissérie A Pedra do Reino já estão editados e prontos para estrear na TV Globo, na terça-feira, dia 12, depois do programa Casseta e Planeta. O diretor Luiz Fernando Carvalho está fazendo segredo das imagens e exibiu os capítulos a um grupo restrito de pessoas próximas. Todo o sigilo não impediu, porém, que várias cenas já vazaram no YouTube. A mais interessante é a seqüência da visão de Lino Pedra-Verde, numa luta contra um cavaleiro fantástico. Pedro do Reino narra a aventura épica e lunática de Quaderna e Lino Pedra Verde no sertão. A série é baseada no romance do escritor parabiano Ariano Suassuna, publicado em 1970. Na cena que dura pouco mais de um minuto, você já pode ter um aperitivo da abordagem de Carvalho, um dos maiores diretores da televisão. Para aprofundar no assunto, vale dar uma olhada nas anotações de Carvalho no set de gravação. Ele conta detalhes sobre o personagem Pedra-Verde e como pensou em William Blake quando compôs a cena:
“02 de novembro 06 – Num lajeado próximo a Taperoá, a produção monta uma infra-estrutura com efeitos especiais para a seqüência em que Lino Pedra-Verde (Flávio Rocha) tem a visagem do Cavaleiro Diabólico. Em uma das cenas, Lino está dentro de um crículo de fogo, exasperado e em êxtase. A atmosfera da cena – unindo o céu e o inferno – é inspirada em William Blake, escritor e ilustrador inglês. A imagem do cavaleiro será inserida na pós-produção por computação, pelas equipes da Lobo e da Vetor Zero, empresas de São Paulo responsáveis pelos efeitos especiais da microssérie”. Em seguida, explica: “Lino Pedra- Verde é amigo de infância de Quaderna, aprendeu a tocar viola com João Melchíades (Abdias Campos). Um acidente o tornou caolho do lado direito, mas não lhe turvou a imaginação. Acostumado a ter visagens desde menino, tomou gosto por veros proféticos e assombrosos. Suas premonições se agravaram depois que passou a mascar erva-moura e beber o vinho encantado da Pedra do Reino, cuja receita foi descoberta por Quaderna. Seu figurnino é alegórico circense, como se o próprio tivesse coletado retalhos de pano e costurado da maneira que pôde, com cordas de sisal.”
Como esta seqüência e outras - inclusive com cenas de bastidores - chegaram ao YouTube é uma pergunta ainda sem resposta.
Começa dia 12 no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, a exposição "Poética" do fotógrafo espanhol Chema Madoz. O artista vem junto e traz a tiracolo a curadora e crítica de fotografia do Museu Reina Sofia, Catherine Coleman. São 64 imagens, produzidas entre 2000 e 2005, com metáforas e jogos visuais feitos a partir de objetos cotidianos. Tudo em preto e branco, com luz natural. O resultado é fantástico. Madoz - que ganhou o Prêmio Nacional de Fotografia da Espanha em 2000 - diz que seu objetivo é dirigir o olhar do espectador a coisas que estavam ocultas ou passavam despercebidas. Para ele, toda matéria está cheia de sentido e seu lugar no mundo lhe dá significado. Uma bela forma de arte contemporânea. "Poética" vai até 15 de julho. (Martha Mendonça)
A revista americana Rolling Stone de 31 de maio dá um destaque para um grupo cult brasileiro que nunca fez parte de lista de sucessos e é considerado difícil por muita gente: o trio +2. Título e subtítulo são bombásticos: “Samba Supergroup – o filho de Caetano Veloso e seus companheiros de banda virtuoses levam a música brasileira para o século XXI”. O articulista Christian Hoard conta como o trio se apresentou em abril diante de 2500 pessoas na Roundhouse de Londres – casa de espetáculos onde o guitarrista Jimi Hendrix tocou em 1968. O público estava lá para assisitir ao show da cantora Bebel Gilberto e sua bossa-lounge (aliás, on ovo CD de Bebel está nos primeiros lugares das paradas americanas!), mas o +2 ofuscou a filha de João e arrebatou a platéia. Segundo o jornalista, o +2 está numa turnê mundial e “finalmente o Brasil está entendendo sua música”. Exagero de americano fascinado pela mistura de sons brasileiro? Não acho. O projeto + 2 é uma das manifestações de maior inventividade no cenário sonoro brasileiro na década de 2000. O trio propõe um acasalamento onírico de várias correntes, do samba, bossa nova e tropicalismo ao rock de vanguarda e música eletrônica. Aqui em Época, +2 sempre ganhou avaliações consagradoras. E agora chegam ao mercado internacional por méritos. Formado pelos colegas de escola Moreno Veloso, Alexandre Kassin e Domenico Lancelotti, o grupo começou a gravar em 2001, num esquema de revezamento. Daí o nome. A cada trabalho, um deles vira o bandleader e a banda troca o nome. Moreno toca guitarra e canta, Domenico é baterista, Kassin tecladista e produtor. Moreno +2 lançou o CD Máquina de Escrever Música em 2001. Dois anos depois, Domenico +2 veio com Sincerily Hot. Futurismo de Kassin+2 apareceu no ano passado. Em cada um dos álbuns, a autoria de um deles prevaleceu, revelando não só a riqueza mais que batida da música local, mas as múltiplas possibilidades de combinação com três elementos – cada um deles trazendo sua contribuição, tocando não só o seu instrumento, mas combinando outros, numa espécie de polifonia pop. Na atual falta de criatividade do rock brasileiro – o BRock, para usar uma feliz denominação do crítico André Dapieve -, a boa e nova mistura do +2 é uma resposta contemporânea forte da música brasileira. Dê uma espiada acima no que faz Kassin+2 na música "O seu lugar", de João Donato, com participação do autor.
Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).