28/05/2007 Os romenos conquistam Cannes O 60º Festival de Cannes chegou ao fim nesse fim de semana com algumas surpresas, pouca polêmica e muita caridade. A Palma de Ouro, prêmio máximo do evento, foi para 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, longa-metragem do diretor romeno Cristian Mungiu (na foto, ao lado de Jane Fonda) sobre um aborto clandestino realizado na Romênia do ditador Nicolau Ceaucescu, nos anos 80. Entre os favoritos batidos pelo filme de Mungiu estavam Alexandra, do russo Alexander Sokurov, e Secret Sunshine, do sul-coreano Lee Chang-dong. Este último acabou vertendo o prêmio de melhor atriz para a sul-coreana Jeon Do-yeon, favoritíssima. Outro russo, Konstantin Lavronenko, ganhou como melhor ator por Izganie, de Andreï Zviaguintsev, batendo o francês Mathieu Amalrice e sua ótima interpretação em Le Scaphandre et le Papillon - restou ao longa francês o prêmio de melhor diretor, o americano Julian Schnabel. Os romenos, aliás, estavam com tudo em Cannes 2007: California Dreamin, filme inacabado de Cristian Nemescu (morto em um acidente de carro durante a montagem do longa) foi escolhido pelo júri como o melhor filme da mostra Um Certo Olhar. A polêmica do festival ficou por conta da animação Persépolis, que mostra a infância e adolescência da cineasta Marjane Satrapi no Irã da Revolução Islâmica. O filme, que dividiu o Prêmio do Júri com o mexicano Stellet Licht, causou indignação da comunidade iraniana - um órgão estatal cinematográfico do Irã chegou a protestar formalmente pela visão “irreal” das conquistas da “gloriosa” revolução iraniana, de 1979. Entre as produções norte-americanas, destacaram-se o novo longa dos irmãos Joel e Ethan Coen, No Country for Old Men, e o aguardado À Prova de Morte, a mais recente fita de Quentin Tarantino. O longa, que fracassou nos EUA ao ser exibido junto com o filme Planeta Terror, de Robert Rodriguez, foi mostrado em Cannes numa versão extendida, com cenas adicionais, numa tentativa de salvar a lavoura de Tarantino. Foi bem recebido, mas saiu de mãos abanando. Em tempo: no Brasil, está previsto o lançamento da versão maior. E em tempos politicamente corretos, nada como aparecer em obras engajadas e eventos de caridade. O casal campeão no quesito “fazer o bem”, Brad Pitt e Angelina Jolie, viraram as estrelas da vez - e não só no tapete vermelho da Croisette. Angelina foi muito elogiada pelo seu trabalho de atriz em A Mighty Heart, filme produzido por Pitt, sobre Mariane Pearl, viúva do repórter Daniel Pearl, sequëstrado e degolado no Paquistão. Depois, Brad Pitt e o elenco de Treze Homens e um Novo Segredo, incluindo Geroge Clooney, participaram de um jantar, em um navio, para arrecadar fundos para os refugiados de Darfur, no Sudão. Sharon Stone não ficou atrás: promoveu uma festa para uma fundação de pesquisas contra a Aids e ainda deu uma canja ao lado da cantora Kyle Minogue no evento. Até Giorgio Armani entrou na onda: durante o festival, o estilista italiano declarou que dará apoio financeiro à World Cinema Foundation. A fundação, criada por Martin Scorsese, dedica-se à preservação, restauração e distribuição de importantes filmes do mundo todo. Nada mais oportuno do que lançar tal iniciativa no maior festival de cinema no planeta.
Pedro Luís, da Parede e do Monobloco, estréia dia 14 de junho o programa Destino Brasil Música - Um Outro Som, no Canal Brasil. Em 12 episódios, ele vai mostrar o universo musical muito particular de doze cidades brasileiras. Pode até ser comparado, de alguma forma, à Central da Periferia, comandada por Regina Casé, na Globo. A diferença é o formato do programa, menos chacrinha, e o foco direto na música. Pedro Luís acredita que, do samba à nova geração eletrônica, a música brasileira sempre revela mais do que a si própria. "Por trás dela está nossa história, cultura, desejos", diz.
A palavra de ordem é diversificar. Em Brasília, por exemplo, o programa mostra o trabalho autoral da filarmônica local e também a banda Casa de Farinha, composta por mulheres, que mistura muita percussão com ousados tons de voz. Em Vitória, vai da música pop eletrônica ao hip hop, mostrando que o som se desenvolve não só nas periferias de Rio e São Paulo. Em Curitiba, o destque é o grupo Fato, que faz música urbana utilizando elementos tradicionais como o tamanco do Fandango. Vale conferir. Destino Brasil Música vai ao ar às quintas-feiras, às 21h. (Martha Mendonça)
Imagine um livro baseado no seu álbum predileto. Com o tamanho de um CD. Gratuito. Gostou? Então acesse www.mojobooks.com.br , cadastre-se, escolha e faça o download. Clássicos da música pop como Revolver, dos Beatles, Thriller, de Michael Jackson, Ziggy Stardust, de David Bowie, e Tim Maia Racional podem agora também ser lidos.
O menu é bem variado: Lou Reed, Belle & Sebastian, Pixies, Portishead, Supergrass, New Order, Depeche Mode, Mundo Livre S.A. Os dois últimos lançamentos foram inspirados no disco Night, do Morphine, e Like a Prayer, da diva Madonna em sua melhor forma anos 80. Já são 40 os livros prontos, lançados um por semana.
Idealizado pelos amigos Danilo Corci e Ricardo Giassetti, o site começou em dezembro. Usando o Creative Commons (que permite a gratuidade dos direitos autorais), a editora online só limita a quantidade de downloads por obra, que vai de 500 a mil. “A idéia é incentivar as pessoas a trocarem os PDF’s pela net”, explica Giassetti. No orkut há uma comunidade com 253 membros que faz isso. São cerca de 10 mil acessos e 4 mil downloads por mês.
No começo, a editora era uma espécie de “ação entre amigos”, convidados a escolher um disco e escrever baseados nele. Mas já é possível, segundo os editores, fazer uma proposta e integrar o time de escritores. Há instruções para o envio no site.
Giassetti explica que as espécie de contos-novelas podem ser sobre qualquer tema. “A maioria dos livros fala sobre amor e relacionamentos mal-resolvidos, mas achamos que isso é um sintoma do projeto. Todo mundo que gosta muito de um disco tem uma historinha meio adolescente para contar sobre ele”. E quanto ao estilo do texto? “A Mojo tem uma cara mais solta, mas quem quiser fazer algo mais experimental, analisamos e publicamos.”
Ainda que a idéia seja trocá-los, como qualquer livro, os exemplares também podem ir para a estante. Só que de CDs. Quando impressos, os “mojos” ficam do tamanho de um encarte de CD, que pode ser colocado numa caixinha.
Os fãs de música e literatura pop verão que já é possível, como num livro de Nick Hornby, entrar numa daquelas lojas - que hoje, na era do MP3, ninguém frequenta mais - e simplesmente garimpar novidades ou um daqueles álbuns que, por um motivo particular ou não, fizeram e fazem história.
(Laila Abou Mahmoud)
O Mente Aberta conversou com o editor Ricardo Giassetti. Confira:
Mente Aberta - De onde saiu a idéia da MojoBooks? Ricardo Giassetti - A idéia começou quando eu e Danilo tínhamos uma banda, em 95 e fazíamos o contrário: pegávamos autores que gostávamos, como Hemingway e Kafka, e fazíamos as letras da banda baseadas nas obras desses caras. Dez anos depois Danilo escreveu o volume 1 e eu o 2. Lançados em dezembro e, a partir de janeiro desse ano, começamos a lançar um por semana.
Mente Aberta - Quem são os próximos autores? Giassetti - O da semana que vem é de uma banda italiana meio hype na Europa chamada Perturbazione. Quem vai escrever é um brasileiro que mora na Itália. Vamos lançar a Andréa del Fuego, que fez a primeira trilha sonora, a do Blade Runner. Recebemos também um livro bacana sobre o CD “Construção”, do Chico Buarque e, como queremos ter mais MPB, vamos colocá-lo para sair um pouco na frente no cronograma de lançamentos, já em agosto. A Vange Leonel fez também o segundo disco da Rita Lee. Começaremos também a fazer edições bilíngues. A primeira do equatoriano Jay U sobre um álbum do Tom Waits.
Mente Aberta - Qual o critério para vocês recusarem um livro? Giassetti - Se o texto não for bom. Mas eu e o Danilo nos esforçamos para que ele fique bom: editamos todos e devolvemos para o autor com sugestões. Na verdade, nunca recusamos o livro. Recomendamos melhorias. Se o cara desistir, problema dele. Se ele insistir, nós damos esse apoio.
Mente Aberta - Vocês vão começar um novo projeto com quadrinhos, a MojoComix? Giassetti - Sim. Eles vão ser publicados online e vamos incentivar o experimentalismo, porque a agilidade que temos na internet é muito bacana. Fui editor de quadrinhos por 10 anos e posso publicar na MojoComix o que eu não podia publicar em papel. Na internet posso arriscar e deixar o autor mais livre para experimentar e usar outras técnicas de desenho e pintura.
Mente Aberta - E vocês vão adaptar álbuns? Giassetti - Vão ser volumes com histórias curtas. Cada um vai ser referente a uma música. Os MojoComix vão ser como singles. O número um vai ser o “Like a Rolling Stone”, do Bob Dylan, feita por um brasileiro.
Mente Aberta - Os downloads vão ser disponibilizados a partir de quando? Giassetti - O plano é a partir de julho, mas a produção dos quadrinhos demanda um tempo maior de produção. A idéia é fazer um a cada dois meses, no começo.
Mente Aberta - E os downloads vão continuar gratuitos? Giassetti - Sempre. Por mais que cresçamos, os livros vão continuar sempre gratuitos.
Na semana passada, fui internada num hospício. Na Vila Maria Zélia, uma antiga vila operária no bairro do Belém, na zona leste de São Paulo, assisti à peça Hysteria – superelogiada pela crítica desde sua estréia, em 2002, e ganhadora de cinco prêmios. O espetáculo, que ambienta um hospital psiquiátrico feminino, foi a primeira criação do Grupo XIX de Teatro, que definiu sua área de interesse em temas do século XIX. A apresentação foi feita especialmente para uma turma de estudantes de vários cursos da Universidade de São Paulo, que freqüentam a licenciatura da Faculdade de Educação. Eles estão estudando os textos de Michel Foucault – aliás, estavam, antes de a greve estourar – e a noção de loucura, o que tornava o tema da peça mais que apropriado.
Em um belo salão abandonado da vila, que tem construções tombadas pelo patrimônio histórico, cinco atrizes interpretaram mulheres encerradas em um hospício, diagnosticadas com histeria. O público foi separado entre mulheres, que foram assentadas em bancos de madeira onde ocorreria a encenação, e homens, que ficaram numa platéia mais afastada. Antes mesmo de todos estarem acomodados, Nini (Mara Helleno), uma espécie de enfermeira, falou duramente com a platéia feminina, tratando as estudantes sentadas como se fossem internas do hospício. Apesar do medo visível nos rostinhos de que aquilo seria “teatro interativo”, o constrangimento inicial logo foi substituído por empatia. Sentadas no meio do corre-corre das atrizes, as meninas se entregaram à dita histeria feminina. Dialogaram, dançaram e gritaram com as atrizes. Os homens, sentados de canto, assistiam à festa no hospício de olhos arregalados. A coisa toda ganhou um ar divertidamente voyuerístico – as meninas e as atrizes aprontando, os meninos só observando, sem poder participar da brincadeira. Talvez o clima tenha ficado mais patente porque muita gente ali se conhecia da sala de aula da USP.
As personagens de Hysteria nasceram de uma cuidadosa pesquisa histórica de relatos médicos, pesquisas antropológicas e até boletins de ocorrência relacionados a mulheres consideradas “alienadas”, escravas de seus desejos, que mais tarde seriam ligados ao inconsciente. Quando o espetáculo chega ao fim e todos saem pela porta do salão da vila, a sensação é de que as mulheres partilham uma condição. E de que essa condição – pouco mudada desde o século XIX – é aquela que a coloca à beira do ataque de nervos, à beira da histeria, da patologia. Pensando nos estreitos limites que as separam da doença, as mulheres partilham também um segredo: todas – na verdade todos – somos histéricos.
Preste atenção: A peça, que já foi exibida em 18 cidades brasileiras, na França, em Portugal e em Cabo Verde, não está em cartaz no momento. Mas fique atento à programação do Grupo XIX de Teatro, que também apresenta a peça Hygiene.
A 6ª temporada de American Idol chegou ao fim nos Estados Unidos. A final da competição aconteceu na quarta-feira, entre Blake Lewis e Jordin Sparks, arrastou-se por quase duas horas e teve participações especiais de Green Day, Tony Bennett, Gwen Stefani, Gladys Knight, Bette Midler e Kelly Clarkson – esta, ganhadora da primeira edição do programa. Se você assiste a esta temporada do reality show pelo canal Sony e não quer saber o resultado, é melhor parar por aqui. Senão, ficará sabendo que Jordin bateu Blake e tornou-se a vencedora mais jovem do American Idol, com apenas 17 anos de idade. Até aí, pouca surpresa, uma vez que a jovem do estado do Arizona já havia sido apontada como provável vencedora até pelos jurados da atração. A novidade ruim: pela primeira vez, houve queda de audiência da final, assistida por 29,4 milhões de telespectadores – com um pico de quase 35 milhões, cinco minutos antes do anúncio da vencedora. Na edição de 2006, a finalíssima alcançou um público de quase 36,3 milhões de pessoas, número que subiu para quase 43 milhões na meia hora final do programa. Os números, no entanto, não deixam dúvida: mesmo com a diminuição de público, American Idol é um fenômeno de audiência nos Estados Unidos, onde vai ao ar pela TV aberta. No Brasil, a paixão pelo programa, exibido pela TV paga, não queima tão fortemente. Mesmo porque, aqui não existe a possibilidade de se votar em seu favorito, o que tira grande parte da graça do reality show. Até a versão brasileira, Ídolos, produzida e exibida pelo SBT, fez algum estardalhaço na mídia e chegou a ter picos de audiência em 2006 – mas depois murchou. O vencedor da atração, Leandro Lopes, não conseguiu vender mais do que 40 mil cópias de seu primeiro CD. Em março de 2007, Ídolos voltou ao ar, mas até agora não chegou perto da repercussão da temporada passada.
23/05/2007 Sherk 3 é a terceria maior bilheteria de estréia da história...
...e a maior bilheteria de estréia para um filme de animação, nos Estados Unidos. Só se fala disso em jornais e sites especializados. O segundo melhor desempenho na mesma semana, de um inimigo difícil, o Homem Aranha, faturou apenas US$ 28 milhões. Tentativas de explicar o gosto médio do americano há aos montes, mas a teoria que melhor cabe a Shrek 3 é a de que eles gostam do "underdog". Esta palavra em inglês significa que eles idolatram aquele personagem desacreditado, que vem das últimas posições e conquista a liderança. A história de Shrek é a de um underdog. A ironia é do filme - usada sem dó nos dois primeiros títulos - é que Shrek seria um personagem feio demais para caber nos contos infantis que aconteciam em sua vizinhança. Os críticos americanos que já assistiram ao filme torceram o nariz por conta Da insistência no tema. Os americanos também amam reuniões de astros. O elenco dos primeiros filmes está presente na terceira versão – Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz e Antonio Banderas – e isso sem dúvida ajudou a estréia fenomenal. Sem contar a participação de Justin Timberlake, usado à exaustão na promoção do filme, que é o principal astro do pop do momento.
Confira o trailer do filme, já dublado em português:
22/05/2007 O samba como arma O escritor e jornalista Jorge Caldeira é conhecido por seus ensaios de investigação histórica de grande fôlego, especialmente na história econômica. Foi assim que ele forneceu a dimensão épica ao Visconde de Mauá, no livro Mauá, empresário do Império, de 1995. Agora, ele mostra uma faceta desconhecida de sua personalidade intelectual: a de amante e pesquisador da música popular. Ele acaba de lançar, por sua editora, a Mameluco, o livro A Construção do Samba. O volume traz dois ensaios: o que dá título ao livro e a biografia Noel Rosa, De Costas para o Mar. Este último foi publicado originalmente em 1982 pela editora Brasiliense. A Construção do Samba permaneceu inédito por quase vinte anos. Trata-se de um texto mais leve, baseado na dissertação de Mestrado, defendida em 1988 no Departamento de Sociologia da USP. Nos dois textos, Jorge Caldeira investiga o mesmo problema: de que forma a música folclórica foi processada para se transformar na canção “formatada do disco e do rádio”. E defende uma tese original: o samba não é resultado da ideologia de quilombolas oprimidos em seu anseio de expressar injustiças sociais (idéia preconizada pelo sambista doutor Ney Lopes e por boa parte de nossa crítica cultural), mas de um processo consciente, “aproveitando as brechas num mercado restrito para obter o reconhecimento da figura que inventaram, o compostor popular”, diz Caldeira. É esta a idéia basilar de A Construção do Samba: o compositor popular, em sua grandeza e dignidade conquistadas na música popular do Brasil, é produto de uma elaboração. Desde o primeiro samba gravado, “Pelo Telefone”, de Donga, em 1917, o gênero afro-brasieliro já era um produto da chamada indústria da música – e não exclusivamente do canto folclórico, do canto “do povo”, como dizem alguns. E se tornou ainda mais forte quando, entre 1937 e 1938, Donga dirigiu gravações históricas de sua própria produção, canonizando o que havia realizado, agora num padrão superior de excelência. No ensaio dedicado a Noel Rosa, Caldeira defende que o ‘Poeta da Vila” constituiu uma figura central na definição do samba, e figura de ponta. Noel foi, para Caldeira, o primeiro compositor totalmente moderno do Brasil. Ora, esta é uma posição questionável, embora fartamente documentada. Na realidade, houve outros compositores populares urbanos anteriores a Noel, que ajudaram a consolidar a forma-canção no samba. O exemplo maior é Sinhô, que urbanizou o samba já em 1924 e desenvolveu o primeiro modelo de canto brasileiro - orientando, entre outros, a carreira de Mário Reis. De qualquer modo, o trabalho de consolidação urbana do samba e da MPB é um processo coletivo, que desabrocha nos anos 20, antes de Noel. Mesmo endeusando Noel, as reflexões de A Construção do Samba , o livro de dois ensaios, ajudam a esclarecer e a desmistificar o tratamento que é dado à música popular neste país. Ela não tem cor, nasce no coração, mas também no trabalho artístico mais profundo e consciente. Mas Caldeira vai além, para arrancar a aura da tão decantada MPB, mostrando que o samba retrata seu tempo, e incorpora os males de seu tempo. Um compositor popular, só por ser compositor, não tem o direito de posar como anjo. É um artista, e um joguete de estruturas que estão além dele. O samba, enfim, é uma arma na guerra cultural. Jorge Caldeira sopra vida no pensamento musical do Brasil, esclerosado pelas obviedades da sociologia neopopulista. Ler A Construção do Samba é comparável a renunciar a muitas das crenças que a crítica nacional nos inculca. É ouvir o samba clássico pela primeira vez. Caldeira reabre o debate sobre as "raízes" do samba. Será o samba um produto ou uma manifestação genuína do povo?
Ele voltou: já surgiu na internet um clipe com mais de três minutos de John Rambo, o quarto filme da série criada há 25 anos. Animado com a volta do personagem, Sylvester Stallone assumiu totalmente o timão do barco: dirige, escreve e estrela a atração, que estréia em 2008. Mas, pelo pouco que se vê no trailer, a fiya promete ser uma carnificina digna de Sly: tiros, cabeças arrancadas, lança-chamas, gente explodindo e muito, muito sangue. Dessa vez, o ex-boina verde toica sua vidinha simples até que é contratado para proteger um grupo de missionários cristãos em Mianmar (antiga Birmânia). Obviamente, logo surgirão birmaneses malvados, que vão seqüestrar os americanos. Um bom motivo para Rambo recrutar mercenários e sair em missão de resgate. O melhor da história está nos bastidores: Stallone declarou à revista americana Entertainment Weekly que, quando escrevia o roteiro, ficou em dúvida sobre qual seria o inimigo da vez. Acabou telefonando para a Soldiers of Fortune, revista pró-militar e pró-armamentista, para saber “qual é o lugar com a situação mais crítica de pessoas cometendo atrocidades contra outras pessoas”. A resposta foi Burma (como também era conhecido Mianmar). E assim nasceu a nova obra do velho Sly.
Editor de Cultura da Época. Jornalista, escritor e crítico. Doutor em Artes Cênicas pela USP, Mestre em Musicologia pela USP. Doutor e Mestre pela USP. Autor dos seguintes livros: Ensaio de Ponto (romance, 34, 1998), Mario Reis, o Fino do Samba (biografia, 34, 2001), Minoridade Crítica (ensaio de história cultural, Ediouro/Edusp, 2004), Até Nunca Mais POr Enquanto (contos, Record, 2004), Teatro Completo de Gonçalves Dias (edição, organização, estabelecimento de texto, ensaio introdutório), A Bacanal do Espírito: Gonçalves Dias Folhetinista (a sair pela Record), Crônicas reunidas de Gonçalves Dias (organização, ensaio introdutório, estabelecimento de texto, a sair pela Record).